Sociedade

PL das fake news é pura fake news

A imprensa escrita, que passou os últimos quinze anos de quatro para as redes sociais, decidiu mudar de lado: agora, está de quatro para Brasília.

Foto: memyselfaneye/Pixabay

O Congresso está aprovando a toque de caixa um dos projetos mais desonestos e canalhas dos últimos anos. A lei contra as fake news transfere a curadoria da mentira para o Estado, distribui esmolas para jornais sedentos e ignora a questão central da torre de babel criada pelas big techs.

Facebook, Twitter e YouTube sabem que são empresas de comunicação e deveriam seguir as leis que forram a velha mídia. Antena 1, Zero Hora e TikTok vendem publicidade e difundem conteúdo, por isso devem pagar os mesmos impostos e respeitar as mesmas regras. Isso é ponto pacífico.

O problema é que o projeto de lei das fake news está mais preocupado com subjetividades que interessam única e exclusivamente ao Estado do que com a disseminação de informações falsas. O YouTube não é santo, mas está certo ao denunciar o caráter autoritário do dispositivo que isenta “canais de interesse público” das atuais regras de moderação. Pior que a leniência de uma big tech é a ingerência do big brother do Planalto.

A imprensa escrita, que passou os últimos quinze anos de quatro para as redes sociais, decidiu mudar de lado: agora, está de quatro para Brasília. Para os combalidos jornais brasileiros, o cume da PL das fake news é o dispositivo que obriga Facebook, Twitter e companhia bela a pagarem pelo conteúdo noticioso compartilhado pelos usuários.

Ainda nos anos 2000, quando os americanos diziam que o futuro do jornalismo era a individualização da informação, seja por meio de blogs ou sites, discute-se uma forma do Google distribuir dinheiro para as redações. Nunca o Vale do Silício se opôs à ideia, diga-se. Acontece que ninguém quer explicar como seria a distribuição do butim. Qualquer palhaço pode abrir um site governista, seja ele de direita ou de esquerda, e usar o lobby estatal para ser apadrinhado. É a privatização dos blogs sujos.

Outro papo velho que corre no café das redações é o da profissionalização do jornalismo. Os donos dos sites juram de pés juntos que a qualidade das notícias caiu por culpa das redes sociais. É mentira. As empresas sempre quiseram ser usadas por Facebook e Google. Essa terceirização teve anuência deles. E, convenhamos, o sucateamento é reflexo da má gestão. Argentinos e americanos souberam se virar e se adequar à digitalização. Os brasileiros nem tentaram. Pior: substituem profissionais por influenciadores até hoje. Quantos "extremistas" são colunistas da grande imprensa? Quantos fofoqueiros semialfabetizados estão pendurados em UOLs da vida?

O Brasil não é um país sério.