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Televisão

Gugu só não é maior que Silvio Santos

Reduzir a carreira de Gugu aos sabonetes que derretiam na banheira do “Domingo Legal” é ignorar a origem, a cultura de um povo. Pode soar clichê, pode parecer hiperbólico, mas os ternos berrantes do início dos anos 1990 eram um contraponto aos dias cinzentos que eu, você e milhões de brasileiros vivíamos. Sem as peraltices do táxi maluco, as presepadas de ET & Rodolfo, as investigações de Saulo Gomes, as reportagens de Silvana Kieling e as aventuras radicais armadas no indefectível “Parque de Provas do SBT”, essa jabuticaba da comunicação de massa varonil, ficaríamos mergulhados na melancolia. Não evoluiríamos na escala da diversão, ainda que, do outro lado, houvesse um Faustão, igualmente importante, disposto a nos entreter.

Gugu era diferente de Faustão, Silvio Santos e Chacrinha graças ao jornalismo. É impossível esquecer a malfadada entrevista com o PCC, pontapé da fase mais confusa de sua carreira, restabelecida para valer anos atrás, quando a Record o escalou para o “Power Couple”, mas imperativo reconhecer os feitos desse eterno repórter à frente dos domingos do SBT, rede inconstante quando o assunto é informação. O especial em homenagem ao grupo Mamonas Assassinas é uma aula de jornalismo ao vivo. As informações, apuradas a conta-gotas, em uma época em que o celular pesava mais que a consciência dos dirigentes da Lusa, eram entregues da maneira que deveriam ser. Era necessária a presença de Mãe Dinah? Não. Mas há de se registrar: até repórter de “O Estado de São Paulo” sentou no chão daquele auditório para a mini coletiva improvisada naquele “Domingo Legal”. O vídeo, para os curiosos, está aqui.

A imprensa, durante a década de 1990, atribuiu ao ibope minuto a minuto e à batalha campal travada pelos domingos de Gugu e Faustão a falência da moral e dos bons costumes na televisão. É a mesma imprensa que hoje faz o diabo para conseguir os cliques e likes que esvaziam as redações e enriquecem os sacanas do Vale do Silício. Ademais, a tensão da audiência medida em tempo real permitiu ao Brasil a promoção dos melhores programas de auditório do mundo. Nada produzido nos EUA, e é um orgulho escrever isso, tinha a capilaridade, a coragem, a intensidade e o destemor dos bravos “Domingão do Faustão” e “Domingo Legal”. Era o nosso Marvel Vs. DC. Com muito menos sangue que as HQs. Com muito menos baixaria que os TV Focos da vida.

Já que não podemos reviver o que passou, temos o dever de agradecer quem ajudou a escrever e fazer a história. Ontem, perdemos o segundo maior comunicador do país. O profissional que conseguiu vencer a Globo consecutivamente por mais de um ano, com picos que beiravam os 50 pontos, e teve seu valor demonstrado, com a deferência típica das grandes empresas, na linda cobertura do “Jornal Nacional”. O empresário que mexeu com a indústria fonográfica, salvou o mercado dos brinquedos e vendeu coxinha na rua Augusta. O companheiro que fez da TV a nossa diversão. O nosso entretenimento.

A TV sem Gugu é menos brasileira. É menos verdadeira. É menos feliz. É menos brilhante.

É muito menos legal.

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