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Televisão

A nova fase do Pânico, o vazio da internet e os ovos quebrados da cultura pop

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O “Pânico” que levou um desconhecido à Comic Con Experience para lamber uma cosplayer passa longe do programa descoberto pelo público em 2003, com verba diminuta e cenário mambembe nas tardes da RedeTV!.

O humorístico tem trocado pouco a pouco seus diferenciais (as imitações, as provocações e o olhar crítico sobre a TV e a sociedade) por brincadeiras sem graça, comandadas por jovens que arrotam modernidade no YouTube reciclando as velhas câmeras escondidas e os programas de esquetes dos Estados Unidos.

Artificiais, ocos e desesperados pela fama, esses novos produtores de entretenimento são instantâneos, mas também efêmeros. Possuem todas as informações na palma da mão, mas não conseguem interpretar nada. São, em suma, incapazes de apontar ironias, satirizar.

Se o “Pânico” faz por merecer as críticas pela regressão, as reiteradas queixas dos sites de cultura pop sobre o humorístico são, no mínimo, exageradas.

O “Omelete” tem todo o direito de banir o programa  do evento, mas erra ao pregar conceitos que inviabilizariam dois terços dos filmes e séries que seus leitores tanto admiram.

Não haveria “South Park” se toda diferença fosse “aceita e celebrada”. Não existiria “Family Guy” sem personagens carregados de “preconceitos de gênero”. “Os Simpsons” nunca romperia “The Tracey Ullman Show” se pensasse exclusivamente nos contratos sociais de tolerância, que, a exemplo dos Gremlins, só precisam de água para se multiplicar.

A comparação entre “South Park” e “Pânico” soa exagerada, mas exemplifica bem a influência do patrulhamento na falta de atrações ousadas na TV aberta e na TV paga. Nosso país já é travado, pouco irreverente e adepto ao conchavo – um benevolente episódio de “Os Simpsons” consegue externar tudo isso. Não precisa de ajuda privada para ficar ainda mais bestial, monótono, passivo, estúpido.

Só existe inovação nos mercados em que a ousadia é permitida. Respeitada. No Brasil, apesar das possibilidades propiciadas pelas novas tecnologias, o que se vê é a mesmice, o medo, a aversão ao diálogo, à crítica. Por aqui, a crença é que a evolução é produto do silêncio.

Se não podemos ter uma Mirtha Legrand perguntando loucuras aos argentinos na hora do almoço, um venezuelano como “O Franco Atirador” ou um peruano com a acidez de Carlos Álvarez, o mínimo que podemos fazer é preservar o “Pânico”. De lambidas e fantasias, estamos cheios.

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