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Amores Roubados, Histórias Repetidas

O protagonista de “Amores Roubados”, Cauã Reymond, interpreta Leandro, um garoto “nascido no sertão e criado em São Paulo pela mãe prostituta”. Formado sommelier, ele retoma a vida em sua cidade natal, Sertão, “onde degusta vinhos e mulheres da alta sociedade”. Durante os dez capítulos da produção, representará a busca pelo “verdadeiro amor”.

Em quinze anos, os americanos, aqueles broncos imperialistas que passam o dia inteiro no Burger King, apresentaram um mafioso com síndrome do pânico, um professor de química à beira da morte que vira cozinheiro de metanfetamina, um médico misantropo e um publicitário capaz de inventar mentiras sobre produtos e enfrentar as verdades da própria vida. O que os brasileiros fizeram? “Leandros” suficientes para três versões do Canal Viva. É o fast food da dramaturgia com sotaque.

Adaptação de um livro qualquer, a minissérie “Amores Roubados” carrega orgulhosamente a nossa infernal espiral de historinhas picantes com coronéis malvados, mulheres que não sabem se choram ou passeiam de bicicleta e rapazes dispostos a povoar a Cidade do México sem descalçar as meias.

Reymond, convertido a Rocco Sifriedi pelas revistas de fofoca, deu vida a um cidadão cuja personalidade está entre o Charlie Harper e o João Grilo. Isis Valverde repete a interpretação de sempre, galgando mais degraus para se tornar a melhor imitadora de Deborah Secco da parada. Patricia Pillar é um arremedo desde os anos 1990. Dira Paes seria excelente coadjuvante em “Baywatch”. Murilo Benício é um jagunço de “Mandacuru”. O The XX na trilha é só pedantismo.

Pior que a execução da fita é a repercussão. Ninguém lembrou de questionar o trabalho dos intérpretes ou a sanidade dos roteiristas. A preocupação nas ruas era sobre o reflexo da tela. As cenas eram chocantes demais. Reais demais. Brutas demais.

É um bocado engraçado o país do Carnaval se escandalizar com uma história que apresenta dois ou três peitos de fora, gente pobre de espírito e umas palavras “de baixo calão” envergonhadamente anunciadas. O Brasil, nunca custa lembrar, fervilhou a partir desses elementos, mudando apenas o batuque que dava o tom às rimas – umas animadas, outras só desaforadas.

Os brasileiros de “Amores Roubados” não recriam o pior da nossa gente. Apenas retiram do Leblon alguns personagens e acrescentam um pouco mais de libido a eles. Como somos muito puros para assumirmos os próprios descontroles (ou desconfortos), calhamos a corar quando encontramos um pé, um pescoço, um peito.

Não somos tímidos para patrocinar o looping dramatúrgico, mas gaguejamos quando vemos a Gabriela em cima do telhado. Nunca vamos sair de Sertão.

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