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Poder

Destrinchando os parâmetros da Secom

A Folha de São Paulo revelou na última quarta-feira que Fabio Wajngarten, chefe da Secom, recebe dinheiro de TVs abertas e agências de publicidade contratadas pelo governo federal, o que é ilegal, e que sua secretaria alterou a distribuição das verbas publicitárias públicas destinadas à Record, SBT, Globo e Band.

A reportagem irritou o Palácio do Planalto. Jair Bolsonaro, quando questionado pela primeira vez, encerrou a coletiva como um gato assustado com o aspirador de pó. Hoje, novamente consultado, preferiu mandar Talita Fernandes, repórter da Folha de São Paulo, calar a boca. A Secom, em nota, não fez muito diferente. Disse que o jornal sentia inveja do sucesso do governo – versão política do “sua inveja aumenta meu ibope” – e não entendia os “novos parâmetros de veiculação da verba publicitária [da Secom], contrariando antigos e nefastos interesses, não se submetendo a chantagens de qualquer espécie”.

Para entender os orgulhosos parâmetros da Secom, o Teleguiado fez o que os órgãos de controle da União deveriam ter feito meses atrás: um paralelo entre as verbas distribuídas pela Secom e a audiência obtida pelas quatro maiores emissoras abertas do país.

Entre 12 de abril e 31 de dezembro de 2019, informa a Folha, a Secom destinou 27,4% de sua verba à Record, 24,7% ao SBT, 13,4% à Globo e 12,1% à Band. Acontece que, ao longo desses quase nove meses de pesquisa, em nenhum momento a Record foi líder de audiência. E a distância entre Globo e Band jamais beirou um ponto percentual.

Tomemos dezembro, tradicionalmente um dos piores meses da Globo em relação a números, como exemplo. A despeito dos feriados, do calor e das mudanças de grade, a emissora garantiu 33,7% de share no PNT, o Painel Nacional de Televisão, na média das 6h às 5h59. A Band, quarta colocada no ibope consolidou 3,1% de participação na mesma pesquisa – índice 11 vezes inferior. Que critério técnico é esse, que equipara grosseiramente o líder e o quarto colocado do ranking?

Não são os “antigos e nefastos interesses” que estão sendo contrariados. São os princípios da matemática e da governança.

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