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Poder

A sociedade não quer empresa pública de comunicação

 (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

(Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Michel Temer exonerou Ricardo Melo semana passada. Muitos leitores do Teleguiado ficaram entusiasmados com a canetada. Três deles mandaram e-mails com felicitações a Leandro Sarugo. Outros dois congratularam Leandro Saburo. Faltou o abraço para o Leandro Sabugo.

Publiquei dezenas de artigos e números sobre a TV Brasil nos últimos três anos. Para os esquerdistas de ocasião, gastei as pontas dos dedos para defender os interesses golpistas das elites econômicas. Para o resto da turma, deixei de bater recordes de audiência rememorando as brincadeiras do “Show Maravilha” para atacar os interesses golpistas das elites políticas. Todos erraram.

O Brasil não é um adolescente bestalhão, mas carrega vários fetiches na cachola. O maior deles é a cultura. Bancamos um mundaréu de filmes para atormentar os críticos dos festivais internacionais. Raramente ganhamos algo, mas cumprimos nossa obrigação social, distribuindo para os cineastas ricos o dinheiro que deveria compor projetos sociais para os mais pobres. O fetiche número dois é a comunicação pública.

Criada em 2007, a EBC é a gestora da Agência Brasil e das emissoras de rádio e televisão do governo federal. Subordinada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, é um fantoche do Poder Executivo. Durante nove anos, repetiu as baboseiras do PT. Nos próximos três, com ajuda de Laerte Rimoli, vai propagar as sandices do PMDB.

O produto mais caro do portfólio da EBC é a TV Brasil. Anualmente, mais de meio bilhão de reais são desperdiçados em programas que dão audiência zero. Também consomem um bom dinheiro a TV Brasil Internacional, que reproduz a grade daqui para as paredes da África e da América Latina, e a TV NBR. Fracasso de público e crítica, essa estrutura serve apenas para a acomodação dos acadêmicos e jornalistas que espalham lixo nas redes sociais, desviando a atenção dos veículos que realmente constroem as narrativas planejadas pelos estrategistas do governo: a Agência Brasil e “A Voz do Brasil”.

Diretamente beneficiada pela deformidade do jornalismo contemporâneo – as redações não produzem mais notícias, preferem criar listas fúteis e repercutir brigas e hoax das redes sociais -, a Agência Brasil tem ocupado cada vez mais espaços nos portais, que publicam os textos, disponibilizados gratuitamente na internet, sem edições. Não raro, até os erros de digitação são mantidos.

Herança da ditadura varguista, “A Voz do Brasil” cumpre desde os anos 1930 a prerrogativa de manipulação dos brasileiros menos instruídos e mais afastados dos centros urbanos. O horário nobre do rádio deixou de ser o noturno, mas a lei que obriga a veiculação do programa nas rádios AM e FM continua firme e forte.

É um alento saber que todos esses recursos não estão mais nas mãos do PT, mas é fundamental lembrar que o expurgo comandado pelo governo interino, cúmplice das barbaridades perpetradas por Dilma Rousseff, atende apenas seus interesses, deixando de lado os anseios da sociedade. Atitude inaceitável para um país endividado, que deveria cortar custos e compreender que é imaturo e corrupto demais para subsidiar uma rede pública de comunicação.

Quem apoia cegamente a chegada de Laerte Rimoli e interpreta a saída dos petistas como a prova cabal do desaparelhamento da imprensa estatal não entende nada de Brasil. Apenas escolhe o político que deseja tratar como bichinho de estimação. Só vamos prosperar quando entendermos que a batalha tupiniquim não é entre esquerda e direita, mas entre o Estado e a sociedade.

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