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Imprensa

Caso Suzy: cinismo não combina com bom jornalismo

Tony Goes escreveu um artigo defendendo a reputação de Drauzio Varella. Concordei com boa parte das ideias, mas fiquei um tanto incomodado com dois parágrafos, que faço questão de transcrever abaixo.

“Confesso que me surpreendi com a ingenuidade de alguns internautas. Ninguém fica preso em regime fechado no Brasil por tanto tempo sem ter cometido algo menos do que assassinato. Estava óbvio que o crime de Suzy era grave.

A Globo errou ao não informar o espectador sobre esse delito? O doutor Drauzio errou? Eu acho que não. A matéria não era sobre a criminalidade das transexuais. Além disso, o médico não pediu que ninguém escrevesse cartas a Suzy. Não questionou sua pena, nem pediu que ela fosse solta. A onda de apoio surgiu espontaneamente, assim como a vaquinha virtual em favor da detenta. De resto, duvido que alguém que contribuiu agora esteja arrependido”.

A exemplo de outras pessoas, Tony ignora três pontos cruciais na história. Três pontos que, para o bem do jornalismo, não podem ser esquecidos. 1) Jornalismo não é exercício de dedução. Como só há um crime citado na reportagem e ninguém é obrigado a entender de leis, confusões do tipo são comuns. Ora, o jornal em que Tony trabalha corre atrás de agências de fake news para esclarecer besteiras; 2) Se a matéria não versava sobre os crimes cometidos pelas trans, Lola deveria receber o mesmo tratamento de Suzy. Ao elencar os crimes que mais levam transexuais à cadeia e categorizar uma delas, a equipe do Fantástico coloca na lata do lixo o argumento da “escolha editorial”; 3) A onda de apoio é bonita, mas não surge espontaneamente. Se a edição chorosa do “Fantástico”, digna de um Geraldo Luís, não sugerisse que a solidão de Suzy era fruto de discriminação sexual, dificilmente aquelas cartas todas chegariam ao presídio. Ou seja, jogaram baixo pra ter audiência. E não souberam dosar as consequências, a esta altura dolorosas para a própria transexual.

Parte da esquerda está comprando teses bobinhas para atrelar transfobia à irritação desencadeada pela descoberta do crime de Suzy. É tudo o que os bolsonaristas pediram a Deus.

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