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Quem problematiza a cultura pop não merece ser levado a sério

“O Globo” publicou neste sábado uma extensa reportagem sobre a aversão dos millennials à cultura pop do passado. Os jovens ouvidos pela reportagem criticaram o machismo de Barney em “How I Met Your Mother”, o egoísmo de Ross em “Friends”, a desonestidade (!) do “Pica Pau”, a gordofobia de “Chaves”, a xenofobia de “Gilmore Girls” e o culto ao estupro de “Gatinhas e Gatões”.

Para entender a ignorância desses jovens (quem enxerga maldade em “Chaves”, comédia mais ingênua que mocinha de novela das seis, não consegue colocar o dedo na ponta do nariz e andar em linha reta sem furar o olho), o jornal ouviu Pedro Cuori, autor da pesquisa “À margem da convergência: hábitos de consumo de fãs brasileiros de séries de TV estadunidenses”. A conclusão acadêmica: “Quem cresceu podendo escolher o que vai ver estranha quando descobre programas feitos para as massas, e que não atendem a seus padrões e sensibilidades”.

Os torrents e as plataformas de streaming não criaram novos padrões sentimentais. Criaram novos padrões de consumo. Os brasileiros não estão mais zelosos – onde já se viu brasileiro zeloso? – à causa humanitária. Estão apenas excitados com a possibilidade de impor uma nova cultura. No caso, a cultura do politicamente correto.

“Friends” e “How I Met Your Mother” são reprisadas até hoje porque são comuns ao grande público. Para os telespectadores, a graça não é a segmentação ou o tratamento modular. É o senso de pertencimento – você não precisa ser vizinho do Central Perk para ter um amigo parecido com o Joey ou uma amiga parecida com a Phoebe.

Imputar machismo e intolerância à televisão do passado é outra desonestidade. Sempre existiu segmentação cultural. “Oz”, “Space Ghost de Costa a Costa”, “Sex And The City” e “South Park” têm mais de 20 anos. O que mudou da década de 1990 para cá foi o preço da tecnologia. Antes, quem era interessado em conteúdos mais encorpados tinha que assinar TV a cabo ou esperar três dias por um vídeo de baixa qualidade do Kazaa. A internet abriu a porta do consumo. E arrombou a janela da problematização.

O Brasil online é muito menos plural que o Brasil offline. Quem assinava a Folha em 1998 lia quase toda semana cartas de leitores enfezados com a banheira do Gugu. A diferença entre os problematizadores do passado e os problematizadores contemporâneos é a postura. Os chatos de 1998 eram tolerantes e entendiam que não podiam mudar a fórceps a produção e o consumo de programas de TV. Os chatos de 2018 são o exato oposto. Intolerantes, arrogantes, beligerantes e completamente alheios à realidade.

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