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Cinema

“Halloween” é como toda sequência deveria ser

Nos Estados Unidos, o mais recente “Halloween” já acumula os recordes de melhor bilheteria de estreia de todos os onze filmes da franquia (inclusive o original de 1978), melhor estreia de um terror com uma mulher como protagonista, melhor estreia com uma atriz acima dos 55 anos (Jamie Lee Curtis completa 60 em novembro) e de segunda maior estreia de terror de todos os tempos. De acordo com a Box Office Mojo, só nos cinemas americanos, o filme faturou mais de US$ 77 milhões na abertura, ficando atrás apenas de “It – A Coisa”, grande sucesso do ano passado.

Dirigido por David Gordon Green, “Halloween” deve ser visto como uma sequência direta do primeiro filme, ignorando todas as outras versões. O enredo é muito simples. Em 2018, quarenta anos após o fatídico Dia das Bruxas, Michael Myers consegue fugir do manicômio e volta a atacar a sua única sobrevivente: Laurie Strode. Intercalando vulnerabilidade e determinação, a magnífica Jamie Lee Curtis interpreta uma Laurie que não se encaixa no rótulo de vítima.

Apesar do trauma provocado por Myers, que ainda prejudica o seu relacionamento com a própria família, Laurie está pronta para se defender. São muitas as cenas em que ela troca de lugar com o assassino. No original, por exemplo, Myers espera por Laurie do lado de fora da escola, agora é Laurie quem observa a neta pela janela; Myers aterrorizou Laurie escondida no armário, agora é ela quem procura por Myers em sua casa.

Com roteiro de Danny McBride (sim, o ator cômico) e Jeff Fradley, além da colaboração do próprio diretor, “Halloween” respeita todos os moldes tradicionais, utiliza a mesma fonte nos créditos, traz de volta a música composta por John Carpenter e oferece mortes violentas, com uma competente maquiagem de efeitos especiais. Há algo de novo e revigorante, porém: o retrato de três gerações de mulheres lidando com a violência e o trauma.

O original de John Carpenter é considerado como um dos percursores do “slasher”, subgênero de terror que dominou, sobretudo, os anos 1980. Entre cinéfilos e acadêmicos, uma das críticas feitas às figuras de Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger é a repetição de uma perspectiva masculina que castiga adolescentes peitudas durante ou após cenas de sexo, misturando pornografia e violência. Nestes filmes, a única personagem a escapar da punição é a moça inocente e virgem, clichê já abordado no metalinguístico “Pânico”.

No caso do mais recente “Halloween”, há uma assimilação das queixas do movimento #MeToo. Decepcionada com o namorado, Allyson (Andi Matichak) vai embora de uma festa à fantasia acompanhada de seu melhor amigo. Ele faz um discurso dizendo que ela merece algo melhor e, em seguida, tenta beijá-la à força e joga a culpa na bebida. Não é um grande spoiler, mas Michael Myers decide puni-lo, para variar um pouco. É importante ressaltar também a função de Karen, filha de Laurie, interpretada pela subestimada Judy Green.

“Halloween” é, portanto, feito com toda a reverência às características principais do primeiro filme, mas oferecendo uma perspectiva nova e atual – é como toda sequência, de qualquer gênero, deveria ser.

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