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Televisão

“Big Little Lies” e a era do ouro de tolo

Baseada no romance de Liane Moriarty, “Big Little Lies” é o exemplo perfeito da inversão de prioridades que, ano a ano, derruba a qualidade da televisão americana. 

Produzida pela HBO, a minissérie acompanha a rotina de três mulheres bem-sucedidas e cheias de segredos. Celeste (Nicole Kidman) é rica, boa mãe e ótima advogada, mas apanha do marido (Perry, interpretado por Alexander Skarsgard). Madeline (Reese Whiterspoon) tem um homem apaixonado em casa, mas não consegue esquecer o ex e evitar casos com outros homens. Jane (Shailene Woodley) tem um filho amoroso e incompreendido, fruto de violência sexual. Todas são suspeitas de um assassinato – apresentado em flashbacks – e colecionadoras de intrigas.

O argumento da minissérie não é inédito. Tampouco extraordinário. Tripudiar sobre a pobreza de espírito dos poderosos é carne de segunda em Hollywood. Quando a alfinetada não é clara, os geeks forçam a canetinha e ligam os pontos. O que tornava “Big Little Lies” diferente da concorrência era o elenco.

Os atores, é justo reconhecer, são constantes até o fim. As vicissitudes dos personagens são bem representadas. Nicole Kidman e Alexander Skarsgard são fantásticos, dramáticos e intensos em todas as cenas de violências física, psicológica ou sexual. Reese Whiterspoon renasceu. Os roteiristas, infelizmente, deixam a desejar. Especialmente no episódio de encerramento da temporada.

A morte do vilão – a sutileza em torno do assassinato desaparece da história nos dois últimos capítulos – da história é repleta de gracejos de novela das 11. Inimigas dão as mãos, personagens-chave desaparecem da cena do crime (o livro não é seguido à risca por David E. Kelley, produtor da versão televisiva de “Big Little Lies”) e o departamento de polícia é mais gentil que o Gilmar Mendes. A densidade desaparece.

Sem o merchandising social do combate à violência doméstica, “Big Little Lies” dificilmente ganharia o Emmy de melhor minissérie de 2017. Muito mais merecedoras, “The Night Of” e “Fargo” perderam porque não tinham uma bandeira em mãos. Parece justo?

Função social é diferente de submissão à rede social. Ou as empresas entendem isso ou trocaremos a era de ouro da televisão pela era do ouro de tolo.

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