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“Há décadas que Silvio Santos abre espaço para homossexuais, tanto no palco, quanto nos bastidores”, diz especialista em história da TV

Foto: Lourival Ribeiro

Conversei com Fernando Morgado, especialista em história da TV e autor da biografia “Silvio Santos – A Trajetória do Mito”, sobre as recentes polêmicas que envolveram o nome do apresentador.

A entrevista é guiada pelas recentes declarações do ator João Vicente de Castro a respeito de Silvio Santos. Em entrevista ao “Programa do Porchat”, quinta-feira passada, o ator disse que Silvio Santos tem a cabeça velha e precisa de mudanças.

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O ator João Vicente de Castro declarou, em entrevista ao “Programa do Porchat”, que Silvio Santos é misógino, machista e “muitas vezes” homofóbico. Você acabou de lançar um livro que reconstrói, com frases do próprio Silvio Santos, a trajetória dele. Silvio Santos teve, ao longo de sua carreira, atitudes que justificassem os termos empregados? 
FM – Inicialmente, é importante resgatar o significado da palavra misoginia. Ela tem relação com ódio, aversão e repulsa às mulheres. Portanto, não considero ser possível aplicar esse termo para alguém que é, ao mesmo tempo, casado com uma mulher, pai de seis filhas e que dedica mais de meio século de vida profissional a entreter e oferecer produtos e serviços para mulheres. Sobre machismo, também não considero aplicável. O público tem contato com Silvio Santos através da TV e, em seus programas, todos notam que as mulheres sempre foram protagonistas. Basta lembrar que Silvio as trata como suas “colegas de trabalho”, elevando a importância delas dentro da dinâmica do espetáculo. Silvio é o único apresentador do Brasil que há décadas tem um auditório exclusivamente composto por mulheres, conduzindo boa parte do programa no meio delas. Isso não seria possível se ele tivesse ávido interesse em afirmar uma suposta superioridade masculina. Por fim, também considero que a homofobia não se aplica. Há décadas que Silvio Santos abre espaço para homossexuais, tanto no palco, quanto nos bastidores. Todos, inclusive, sabem dos concursos com transformistas que ele promove.
Silvio Santos vetava, por exemplo, a participação de homossexuais ou transformistas em seu programa? 
FM – Nunca soube de algum veto por parte dele nesse sentido, pelo contrário. Até hoje ele promove concursos de talento com transformistas. No dia em que estive com ele, inclusive, pude assistir à gravação de um desses concursos e ver a forma digna como o Silvio e a produção os tratam. Não vi o Silvio fazer nenhum tipo de colocação maldosa, pelo contrário: os trata como os artistas que são e oferece grande estrutura de figurino e maquiagem. Além disso, homossexuais notórios, como Leão Lobo, por exemplo, participaram dos seus programas por vários anos e, mais tarde, ganharam novos e maiores espaços dentro do SBT.
Em relação às mulheres, Silvio Santos tinha como regra a exploração do corpo da mulher em filmes e atrações de auditório? Algo que destoasse do padrão da TV aberta da época?
FM – Não. Durante muito tempo, Silvio Santos foi até acusado de animar programas pouco ousados, marcados por formatos tradicionais e que não geravam maiores controvérsias. Somente nestes últimos anos é que Silvio tem se posicionado como polemista. Agora, se falarmos da programação do SBT como um todo, sim, ela já recebeu críticas por conta da aparição de mulheres com pouca roupa, especialmente em humorísticos, filmes e programas de auditório não animados pelo Silvio. Isso, contudo, diminuiu conforme a emissora foi recebendo novos investimentos e realizando produções de maior qualidade.
Silvio Santos sofria acusações de machismo, homofobia e misoginia entre os anos 60 e 90?
FM – Não encontrei registro disso durante esse período. Credito isso a dois fatores: primeiro, porque os programas de Silvio Santos eram estruturados em formatos clássicos da TV, especialmente game shows, que não despertavam maiores polêmicas; segundo, porque esses termos não eram largamente utilizados, ainda mais pelos críticos de TV.
Por que essas acusações são tão frequentes atualmente? Reflexo da internet?
FM – As redes sociais permitiram que todos conhecessem ideias que já existiam antes dentro da mente de determinadas pessoas. Todos podem falar tudo e isso faz com que tenhamos contato com todo tipo de opinião, o que gera uma natural competição por espaço. Para se destacar nessa competição, alguns optam por emitir opiniões fortes sobre determinada figura popular, mesmo sem ter conhecimento profundo sobre ela, conseguindo atrair para si alguma atenção do público em geral. Porém, se essa opinião não se baseia em conhecimento profundo e argumentos sólidos, ela corre o risco de ser contestada pelo mesmo público que lhe concedeu atenção, gerando um desgaste de imagem com sérias consequências.
A internet tornou os telespectadores mais críticos ou mais sensíveis? 
FM – Na minha visão, a Internet tornou as pessoas mais ávidas por atenção, sendo essa atenção medida por números. Em troca de likes, retweets, compartilhamentos etc., muitos topam gerar polêmica sem medir as consequências daquilo que dizem. Esta crise, aliás, é a base de toda a discussão que existe sobre o papel que as empresas tradicionais de mídia e os profissionais de comunicação devem exercer nestes nossos tempos de fake news e pós-verdade.
A televisão era mais plural e menos conservadora sexualmente antes do surgimento da patrulha das redes sociais e da febre do politicamente correto? 
FM – Como professor de História da Televisão Mundial, avalio que esse processo de maior conservadorismo é até anterior à Internet. Por exemplo: neste momento, o Viva reprisa “Tieta”, uma das melhores novelas de todos os tempos. Uma das suas marcas é a belíssima abertura com Isadora Ribeiro nua e feita como extremo bom gosto. Essa novela é de 1989. No ano seguinte, 1990, a Manchete levou ao ar “Pantanal”, outra obra prima da TV brasileira, que continha diversas cenas de nudez, inclusive na abertura. Esse tipo de produção já não era mais vista na TV no início dos anos 2000, ou seja, antes da popularização da Internet. Portanto, não considero que as redes sociais tenham sido culpadas por isso de forma primordial. O Brasil teve uma explosão de ousadia logo após o fim da ditadura militar que se assentou ao longo dos anos seguintes. Nesse processo, não pode ser esquecido também o impacto exercido pela Classificação Indicativa dentro da programação das TVs abertas.
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O ótimo livro “Silvio Santos – A Trajetória do Mito” está disponível nas principais livrarias. 

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