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Danilo Gentili comenta legado de Roberto Bolaños e o humor nacional

Divulgação/SBT

O Teleguiado entrevistou Danilo Gentili na madrugada deste sábado.

O comediante repercutiu o legado de Roberto Bolaños, a dificuldade do Brasil em replicar a técnica das sitcoms clássicas e descreveu o segredo da longevidade de “Chaves”, a produção mexicana que incomodou novelas (“Esperança”), fantoches (Louro José, do “Mais Você”) e jornais (o “Globo Esporte”, que era derrotado por mais de 10 pontos em 2005).

Confira o bate-papo:

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TELEGUIADO – O texto do Roberto Bolaños é inteligente, dinâmico. As tiradas são esperadas, mas não chegam a ser óbvias. A sagacidade que ele exibia nos roteiros serve de inspiração para os comediantes do stand-up?
DANILO GENTILI – Sim. E eu só percebi depois, quando comecei a ganhar dinheiro como comediante e passei a pensar a produção de comédia em TV, em show, com um pouco mais de atenção. Se você pegar o que o Bolaños fez com o “Chaves” e o “Chapolin”, e eu não sei se é porque o México está culturalmente mais próximo dos Estados Unidos, notará a presença da métrica da sitcom clássica, representada em “Two And A Half Men” e, no caso das mais antigas, “Married With Children”. A diferença é que o “Chaves” emula o ritmo. Em vez de ser piada, piada, piada, eles dão uma disfarçadinha e mesclam com um bordão, uma ação. Um personagem só abre a boca se vai oferecer uma piada. Uma ação só acontece se gerar um ato humorístico. Isso é uma coisa que brasileiro não conseguiu fazer. Todas as vezes que brasileiro tentou fazer sitcom, o produto virou uma novelinha divertida. O “Sai de Baixo” tentou, mas não conseguiu direito. Porque não teve o ritmo, a métrica da sitcom, que, na verdade, é a mesma métrica do stand-up comedy, mas adaptada a uma obra encenada.

Vários programas de humor do Brasil ficaram eternizados na lembrança do público. Nenhum deles, porém, apresentava a estrutura ficcional do “Chaves”. Por que ninguém em nosso país conseguiu desenvolver algo parecido?
Porque ninguém tentou entender a linguagem. É o mesmo processo de quando eu comecei a fazer stand-up comedy. Hoje, se você olhar, tem uma molecada que faz show em bar. Quem conseguiu fazer stand-up comedy? A geração que saiu de casa e foi direto para o bar. Os atores de teatro, formados em faculdade, não conseguiam fazer. Era meio vexaminoso… o texto, a estrutura, o ritmo. Então, as pessoas no Brasil são muito viciadas em um tipo só de coisa. E isso vem de muito tempo. É o que virou o teatro a partir dos anos 1960. Se você está fazendo qualquer coisa que não é pelo partidão, algo sem uma “consciência social”, isto é, propaganda esquerdista, você se vendeu. Então, só se ensina nas faculdades de artes cênicas o que pertence à “consciência social”. Então, quem faz hoje o humor brasileiro? A molecada que saiu direto de casa e não foi doutrinada é a que consegue replicar uma sitcom. Mas aí, esse mesmo grupo, que é da onde eu saí, é carente da interpretação. Fica devendo um pouco. Em resumo, o pessoal ou é viciado nessa escola de dramaturgia da “consciência social”, que é o que domina o cenário artístico, ou no produto de massa da Globo.

No documentário “O Riso dos Outros”, que inclusive traz depoimentos seus, Jean Wyllys defende as “maneiras de fazer rir sem humilhar os outros”. “Chaves” ironiza o menino rico, o gordo, o pobre, a idosa. O seriado mexicano de 1971 ainda é avançado demais para os ditos pensadores dos anos 2010? Ela correria risco de censura se fosse brasileiro e contemporâneo?
O problema não é se o “Chaves” foi lançado nos anos 1970 ou 2000, mas qual cartilha política vigorava nos anos 1970 no México e qual vigorava aqui nos anos 2000. Então, o problema não é do tempo, mas do regime político-cultural vigente. Tanto é que o “Chaves” foi proibido em Cuba. Agora… “rir sem humilhar os outros” é muito subjetivo. É uma pessoa definindo o que é humilhar ou não.

Apesar de centralizar as histórias na rotina de uma criança órfã, Bolanõs não levantava bandeiras políticas, como é hábito em vários locais. Isso nunca o impediu de transmitir valores como a amizade, o respeito. O segredo dele ao criar laços com o público era enxergar a sociedade sem essas amarras intelecutais?
A sociedade que o Bolaños aborda é uma vizinhança de cortiço. Ou seja, ele fala sobre as pessoas normais, comuns, não sobre os “intelectuais”. E ele mostra que aquelas pessoas normais, se amam, se odeiam. Tem um que não paga aluguel e não quer trabalhar. O outro sabe disso, mas perdoa a dívida. Aí tem o menino órfão, ajudado por outro menino. Enfim, ele retrata ali pessoas normais que resolvem seus problemas contando umas com as outras, sem precisar de um governo, de um intelectual. Aliás, se você pegar a obra do Bolaños, as mulheres ali são as personagens mais fortes. Quem bate é a Dona Florinda. Quem sempre engana os meninos é a Chiquinha. Quem sempre constrange e tem o Seu Madruga na mão, por ser independente financeira, é a Dona Clotilde. O que é apresentado ali na vizinhança é o oposto do clichê que os alunos da 6a série aprendem, de que os pobrezinhos precisam de apoio intelectual pra poder resolver seus problemas. Os personagens estão pouco se fodendo pra isso. Se chegasse lá um intelectual cagando regra, levaria bolada, vaso na cabeça, tijolada. São personagens com valores comuns, que reconhecem e resolvem seus problemas. E isso é uma das coisas mais legais. É o ponto de identificação mais forte da onde eu venho, provavelmente da onde você vem. Na minha rua, era assim. Eu conheço aquelas pessoas. Você consegue identificar aquelas pessoas na sua vida, na sua família.

Há 30 anos praticamente ininterruptos no ar, “Chaves” ainda belisca a liderança. Acredita que a série tenha fôlego para mais alguns anos na disputa?
Sem dúvida. São 30 anos repetindo os mesmos episódios. Não tem razão pra mudar o padrão. E o “Chaves” conta com uma arma muito forte pra garantir a popularidade dele: a memória afetiva dos futuros pais e mães. E, se a criança assistir, vai gostar. É universal.

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  • Douglas

    Ótima entrevista!

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