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Televisão

Um dia com a TV Brasil

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Monica Bergamo publicou na edição de 22 de maio da Folha de São Paulo dados “confidenciais” – e desalentadores – sobre a audiência da TV Brasil.

Criada para colaborar com a “democratização da mídia”, a emissora fechou a terceira semana de abril com 0.05 de ibope em São Paulo. No monitoramento mensal, ficou apenas 60 minutos longe do traço.

0.05 é um resultado muito ruim, mesmo para quem não tem compromisso de fazer sucesso. A MTV, emissora segmentada, não fecha uma semana com 0.05. O culto da Igreja Universal exibido durante a madrugada não marca 0.05. Para aplacar minha dúvida sobre a repulsa do público, resolvi fazer o que ninguém faz com frequência. Sintonizei a emissora. Por um longo período. Doze horas. Um diagnóstico certamente surgiria. E, de fato, surgiu.

Comecei a maratona às 10h00. A primeira coisa que surgiu na tela foi uma batata. Antes que eu pudesse raciocinar, mais três batatas surgiram. Após uma piada muito ruim, elas começaram a cantar. A música era pior que a piada. No fim da apresentação, outra piada. Vibrei com os créditos finais. Cinco demorados minutos. Um detalhe chamou minha atenção: a animação era americana.

Até a hora do almoço, vi uma porção de desenhos educativos. Todos muito adequados às crianças. Até uma versão genérica de Mafalda eu descobri. Chama-se Cedric. Tenho certeza que ele seria candidato a deputado pelo partido da Marina Silva. Escrevo isso porque, sem desmerecer o desenho, os dois pensam de maneira parecida.  Entre uma e outra atração, as batatas “American Idol” voltavam. Por que o país da cota nacional na TV paga não abre espaço para as animações tupiniquins na TV pública?

A grade infantil da TV Brasil realizou uma breve pausa entre 12h00 e 12h30. É nesta faixa que o canal exibe a primeira edição de seu telejornal, o “Repórter Brasil”. Como eu sabia que a edição principal era exibida às 21h00, não fiz uma análise muito crítica. Apenas reparei o cuidado dos repórteres com os releases do governo.

Como eu já suspeitava, as batatas retornaram assim que o noticiário acabou. Após outra piada desastrada, resolvi chamar uma delas de “Bruno Mazzeo”. Era a metida a intelectual. No fim da canção, pensei na regressão do mercado musical. De 1998 para cá, tivemos padres cantores, pastores cantores, o Otto e os legumes cantores.

Se a boa vontade na hora de apostar em novidades locais inexiste, a TV Brasil me pareceu bem esperta na hora de escolher os produtos consagrados. Para inflar a grade vespertina, ela exibiu “Cocoricó” e “Peixonauta”, duas grifes da animação para as crianças. Às 16h00, após “Clube do Travesseiro”, a maratona infantil teve ponto final.

MAIS SEIS HORAS
O primeiro programa adulto que eu pude conferir não foi exatamente uma novidade. Comandado pela jornalista Leda Nagle, o “Sem Censura” existe desde os tempos da finada TVE.

Às 18h00, depois do programa sobre esportes radicais, conferi o “Estúdio Móvel”. Apresentado por uma moradora cool da Vila Madalena, o programa propõe uma expedição em busca de novos talentos e elementos de resistência criativa. Peguei no sono quando os convidados começaram a falar sobre “pensamento corrente da população”. Acordei às 20h35, no meio da propaganda eleitoral obrigatória. Pela grade de programação, perdi alguns enlatados e o show de Ancelmo Gois.  Fiquei aliviado.

A primeira risada do dia aconteceu às 20h40, quando uma senhora (pensei ser a batata cantora nos segundos iniciais) anunciou o início de “O Púbico na TV”. Não pelo texto porcamente lido, mas pela ironia. Não sei se pensaria algo mais genial que isso: usar a expressão “o público” no título de um programa que dá traço de ponta a ponta.

Criado para a ouvidoria da EBC responder dúvidas do público (aqueles e-mails dos participantes do “Teste de Fidelidade” parecem mais verossímeis que e-mails de telespectadores da TV Brasil), o fórum debateu a teledramaturgia contemporânea. Três minutos bastaram para a apresentadora do “O Público na TV” e a convidada, cujo nome felizmente não me recordo, enveredarem para o fetiche do controle de mídia.

Para elas, o grande problema da teledramaturgia brasileira é a influência da iniciativa privada. Pelo que eu entendi, o país tem gente mal educada e despreparada porque as novelas exibem sacolas do Carrefour quando deveriam propagar a ética e a moralidade pretendidas pelos governo federal. A EBC tem muito apreço a valores, desde que nenhum deles seja a liberdade.

Durante o intervalo comercial, a preocupação da TV Brasil em oferecer dramaturgia de qualidade foi ilustrada com o anúncio de um seriado francês. Enquanto importuna as emissoras, que mal ou não produzem novelas e séries, movimentando o mercado, o governo compra produções do quilate de “O Conde de Monte Cristo”.

No retorno do programa, a apresentadora, apanhando do teleprompter, chamou algumas gravações do público. Em um momento, a expressão “influência maléfica da TV e da internet” foi utilizada. Nem a lepra foi tão ofendida. Outra telespectadora, e parabenizo a equipe do programa pelo esforço de localizá-la, perguntou o total de horas que uma criança pode ser exposta à TV. Como se a TV fosse Césio 137.

A última parada da noite foi o “Repórter Brasil”. Mesmo sem sua estrela, Emir Sader,  o jornal é bastante interessante.  A vinheta de abertura, por exemplo, reúne todos os elementos da identidade nacional falaciosa e grotesca que tanto orgulha a todos. Em flashes, aparecem índios, crianças e as bicicletas, promovidas à condição de resistência no ano passado.

As pautas eram pouco informativas. Para um jornal de 60 minutos, a única cobertura bem feita foi a de esportes. Uma feira de “comércio justo” foi o grande destaque. Não sei quanto custou essa feira, mas ela não trazia nenhuma inovação. Difícil entender a novidade na negociação entre produtor e consumidor. Só mesmo quem crê na maléfica influência da TV e da internet pode desconhecer princípios básicos do mercado.

Outro destaque foi a feira de cultura LGBT. Procurei o Laerte em todos os momentos, mas não encontrei. Vai artesanato, vem artesanato, a matéria mostrou algumas pessoas encenando esquetes contra as doenças sexualmente transmissíveis. Possivelmente a maior ofensiva brasileira contra a AIDS desde sempre.

Aguardei a despedida dos três âncoras – o jornal tem mais apresentadores do que telespectadores – para trocar de canal.

A TV Brasil foi inventada para atender a “antiga aspiração da sociedade brasileira por uma televisão pública nacional, independente e democrática”, uma dessas máximas inventadas para conferir um pouco de superioridade intelectual aos brasileiros.  Ela não é nacional, porque abusa do conteúdo estrangeiro. Também não é democrática, porque apenas implica com a iniciativa privada. Só é independente. Independente de público.  E vai continuar assim por um bom tempo. Porque é feita por gente que não entende a TV. Por gente que não entende o público. Por gente que entende e avalia a semiótica do traço. Traço que não sai barato.

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