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Que saudade da Roberta Close

por Cyd Losekann

Eu sou da época em que transexual era chamado de transformista. Sim, ao contrário do que a atual novela de Glória Perez pode dar a entender, sempre houve transexuais e travestis na TV aberta – talvez não com tanta frequência na Globo, onde só recentemente permitiu-se colocar personagens falando palavrões em horário nobre.

Talvez as pessoas mais jovens não saibam quem é Luiz Roberto Gambine Moreira. Eu também não sabia, só soube depois de consultar a Wikipedia, mas desde muito tempo sei quem é Roberta Close. Uma pessoa muito elegante e bonita, por sinal. Pouco sei sobre sua vida pessoal e sobre os maus-tratos que sofreu pela sua escolha, isso raramente era abordado pela mídia; nunca interessou. Ela era tratada, na medida do possível, como uma pessoa normal. “Na medida do possível” porque, no nosso imaginário, era uma mulher muito bonita para alguém que um dia foi um homem, e também porque a cirurgia de troca de sexo ainda era uma novidade na época em que Roberta fez sucesso.

Diferentemente do que acontece no mundo do SBT e da Rede Bandeirantes, onde Roberta Close aparecia com mais frequência, a Globo não consegue tratar casos assim com espontaneidade. As novelas globais têm em seu elenco atores saídos do teatro, atores que estufam o peito ao falar que saíram dos palcos para a novela das 8h. O meio dramatúrgico brasileiro, e não é de hoje, tem como prioridade causar espanto na plateia, quebrar tabus, mostrar corpos nus, introduzir símbolos religiosos (geralmente cristãos) em lugares estranhos e desconstrucionismos desse tipo. Coisas que não espantam a maioria da população brasileira, habituada com nudez e violência de todas as formas, mas que talvez causem choque em uma minoria disposta a pagar por ingressos caros para quebrar a monotonia.

Não é de se estranhar que as últimas novelas transmitidas pela Globo tenham sido marcadas pelo “primeiro beijo gay”, “primeira transexual” e assim por diante.  Também não surpreende que esses “marcos” tenham sido acompanhados de uma série de mudanças na programação da emissora, mudanças que envolveram, entre outras coisas, uma faxina em tudo o que pudesse ser considerado ofensivo a um ou outro grupo social (caso do programa Zorra Total, que teve seu diretor demitido e boa parte dos quadros renovados) e a estreia de programas ridiculamente didáticos sobre assuntos ditos polêmicos, como o Amor e Sexo – apresentado pela nova inimiga de Sílvio Santos, Fernanda Lima.

A Globo não quer uma vida mais digna para aqueles que sofrem. A Globo quer, nas palavras acertadas (e talvez involuntárias) de um colunista da Folha de São Paulo, criar uma “estratégia de mobilização social”. Dito de outra maneira, a emissora quer mostrar temas polêmicos (que de polêmicos não têm nada, pois uma polêmica envolve pelo menos dois lados) exaustivamente e, mais do que mudar a mentalidade dos espectadores, quer mostrar que determinada questão ainda é um tabu na retrógrada sociedade brasileira. Tão tabu que a novela Força do Querer, com uma personagem trans como protagonista, chegou a bater recordes de audiência.

Se boa parte da população do país está mais do que habituada com situações realmente escatológicas, a que atribuir o sucesso da personagem trans da novela de Glória Perez? À própria influência da Globo (não sem ajuda de um jornalismo instigador de falsas polêmicas), à ideia de uma emissora de TV tida como santarrona e moralista mostrar, pela primeira vez, um exemplar de transexual em uma das principais atrações de sua programação.

Assim como o Vídeo Show utiliza seu tempo de duração para falar da programação global e os talk shows globais geralmente trazem entrevistados da própria emissora, colocar uma atriz para interpretar uma transexual também se trata da Globo falando sobre si mesma, sobre sua capacidade de rever posturas antigas e de se renovar – e, principalmente, de como se espera que o público faça o mesmo.

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