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Roteiro inconsistente sacrifica “Atômica”

Por Ieda Marcondes

Em Atômica, há uma cena em que Charlize Theron – o nome de sua personagem é mencionado duas ou três vezes, então, ao contrário de James Bond, ela permanece em nosso imaginário durante todo o filme como Charlize Theron, atriz, produtora e mulherão – luta com capangas atrás de uma tela de cinema exibindo Stalker, de Andrei Tarkovsky. Em dado momento, é lançada e rasga a tela ao meio. É possível dizer que trata-se de um comentário do diretor, de uma ruptura figurativa e literal com o cinema intelectual e contemplativo, mas seria forçar a barra. Atômica é, sim, um exagero sensorial, mas não chega perto do esmero de um espetáculo tarantinesco, por exemplo, ao ponto de se tornar uma declaração artística.

Grande parte do problema é o roteiro. No contexto da Guerra Fria, de uma Alemanha sitiada, em que as pessoas se arriscavam diariamente para tentar fugir, e da possibilidade constante de uma guerra nuclear, o vazamento de uma lista com nomes de agentes secretos não parece uma ameaça tão grave assim – pelo menos não para nós, reles mortais. Tudo bem, é apenas o MacGuffin que coloca as coisas em movimento, mas é um MacGuffin fraco, que faz todo o esforço parecer sem sentido. A ideia de substituir uma simples narração por um interrogatório é boa, o único problema é que o filme desvia do ponto de vista da interrogada para mostrar coisas que ela não tinha como saber. Assim, o interrogatório fica parecendo um improviso, uma ideia posterior que os roteiristas tiveram para tentar arrematar o filme todo e que acaba não funcionando narrativamente.

A fotografia, pelo menos, é bonita, e a beleza de Charlize Theron com o cabelo platinado ajuda. Há uma bela combinação de azul e vermelho, ambos em tonalidade de neon, que refletem nela, criando quase uma aura. Seu figurino, também invejável, é quase todo preto e branco, bastante gráfico, bem pouco discreto. É lamentável que seja quase impossível de distinguir, apenas pela direção de arte, quando Charlize Theron (sim, vamos continuar chamando Charlize Theron de Charlize Theron) está na Alemanha Ocidental de quando ela está na Alemanha Oriental. É lamentável também que o trailer tenha entregado tanto. Se você viu o trailer, viu boa parte das piadas e das surpresas do filme. Não sobrou tanto assim.

As músicas são ótimas, mas muitas delas parecem descabidas ou excessivas, não casam com as cenas, nem do ponto de vista do estranhamento (Stuck In the Middle With You funciona melhor em Cães de Aluguel do que 99Luftballons na cena do skate). Não à toa, a melhor cena de ação acontece em silêncio, o que favorece os sons de porradas, chutes, facadas, gritos, grunhidos etc.. Aliás, é esta cena que vale o ingresso do filme e ver que é a Charlize Theron, não a personagem, ali, dando surra em brutamontes. A falta de experiência do diretor David Leitch, que só dirigiu algumas cenas de John Wick – Um Novo Dia para Matar, pode ter atrapalhado, mas seu ponto de vista como dublê com certeza ajudou neste sentido. Um segundo filme, com um roteiro mais estruturado, mais comedido na trilha sonora, mas com a mesma ação da cena – quase – silenciosa seria muito bem-vindo.

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