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“Corra!”: uma boa ideia atrapalhada pelo maniqueísmo

Por Cyd Losekann

Estava resistente para ver o filme “Get out!” (no Brasil, “Corra!”). Em geral, se não for uma cinebiografia de Martin Luther King ou um filme histórico sobre o Apartheid, o fato de a etnia dos personagens ou dos atores merecer mais destaque do que o próprio filme é um mau sinal. Mas, depois de ouvir elogios de alguns amigos com bom gosto cinematográfico, resolvi dar uma chance à produção de Jordan Peele.

Assim como “Dear White People”, série exibida pela Netflix que causou polêmica na ocasião do seu lançamento, “Corra!” também lança mão de um tom irônico para caricaturar o homem branco médio americano. No lugar da condescendência forçada e do humor político maçante apresentado pela série, porém, Peele opta pela violência maniqueísta.

Logo no início do filme, quando Chris, o protagonista negro, é apresentado à família de sua namorada branca, o pai da moça, na tentativa de soar agradável, diz que “Barack Obama foi o melhor presidente que os Estados Unidos já tiveram”, que “até votaria nele para um terceiro mandato” – uma versão americana de “não sou racista, tenho até amigos negros”. Começando com um racismo velado entre atitudes constrangedoras, a família Armitage se revela um verdadeiro clã Mengele que, em vez de atingir a pretensa pureza racial ariana, ambiciona tornar negros todos os membros da família.

A ideia não é ruim. O alvo do filme não é o supremacista com adesivo dos Estados Confederados em sua Hummer, mas o eleitor branco do partido democrata, mais preocupado em propagandear sua virtude do qualquer outra coisa. É um tipo de racismo diferente da segregação aberta que existiu pelo menos até meados do século passado entre os americanos; talvez seja uma segregação mais próxima da que o brasileiro conhece bem. Nesse aspecto, Peele faz uma bom diagnóstico da situação atual de seu país.

O problema de “Corra!” surge quando o diretor transforma a história em um filme de vingança de Quentin Tarantino. Aparentemente é um clichê de produções sobre justiça social dos últimos anos – talvez porque resumir tudo à questão política acabe sendo tedioso demais, sabe-se lá. Já vimos isso no Brasil, em “O Som ao Redor”. Não é justo imputar a Kleber Mendonça Filho ou a Jordan Peele intenções que nunca passaram por suas cabeças, mas, ao menos no caso do diretor americano, vê-lo tratar com cinismo a passagem de um racismo aberto e corroborado cultural e politicamente para um racismo resquicial não deixa muitas esperanças para soluções como as de Martin Luther King: um homem corajoso e com saídas alternativas à violência. Em vez disso, o que parece nos aguardar são mais discussões intermináveis sobre o racismo e sua versão “reversa”, discussões que nada mais são do que a versão teórica do ódio e ressentimento mútuos que só crescem e se manifestam na prática entre os americanos.

Talvez fosse melhor se, a exemplo de outras produções envolvendo artistas negros, como os filmes de Eddie Murphy e o recente “Estrelas Além do Tempo”, a questão étnica fosse apenas contingente ou tratada com uma ironia menos sangrenta e ressentida. Foram-se os tempos do black face. Artistas negros já podem estrelar grandes filmes e seus grandes feitos podem ser comemorados sem ser em tom de intimidação. Ver as coisas dessa forma não significa tratá-los com condescendência ou querer domesticá-los, mas tão somente encará-los como nossos iguais. Por outro lado, se assim fosse, se todo o debate racial ficasse em segundo plano, só restaria a “Corra!” ser um filme com buracos imensos no roteiro (como Chris conseguiu colocar os tampões nos ouvidos se estava com as mãos amarradas?) e deixar o potencial do filão de filmes sobre médicos nazistoides – e seus experimentos desumanos – ser melhor explorado no futuro.

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