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Estética não compensa narrativa confusa de “Dois Irmãos”

“Dois Irmãos” carrega tudo o que é naturalmente bom (a direção de arte, a captação, a fotografia, os pormenores técnicos) e tudo o que é naturalmente ruim (a maioria das atuações e o roteiro) na dramaturgia da Globo.

Dez atores interpretam os quatro principais papeis da história, baseada no livro homônimo de Milton Hatoum. Para a bagunça das novelas com imigrantes italianos, nada anormal. Para a realidade de qualquer roteiro com dez capítulos e poucos núcleos, uma excentricidade.

A minissérie acompanha a rotina desgraçada dos libaneses Halim e Zana, imigrantes que decidem tocar a vida em Manaus. Casados, eles não demoram para gerar os gêmeos Yakub e Omar, que na fase adulta são vividos por Cauã Reymond e disputarão, a ferro e fogo, o coração de Bárbara Evans, que agora é atriz.

Zana é retratada na juventude (Gabriella Mustafá), na criação dos filhos (Juliana Paes, que fala como a Dona Álvara da extinta série “Toma Lá Dá Cá) e na velhice (Eliane Giardini). Omar é quem mais recebe mimos, por ser o caçula e supostamente mais fraco. Esses agrados criam reservas de ciúme e ódio em Halim (começa com o ótimo Bruno Anacleto, passa pro Antonio Caloni e desemboca em Antonio Fagundes) e Yakub (o jovem Matheus Rocha trabalha por ele e pelo irmão na adolescência).

A mistura parece confusa no roteiro. Fica ainda mais no vídeo. Todos esses atores – não citei os dois garotos da fase dente de leite – estão embaralhados na história, que abusa dos recursos temporais para mensurar sofisticação, requinte. A bagunça é tão evidente que nem o narrador, Nael, e as observações do velho Halim, esquecido num barco no meio do mar, são suficientes para tornar coesa, compreensível, a narrativa.

A Globo tem melhorado muito esteticamente. Luiz Fernando Carvalho é um diretor artístico muito competente, com boas referências e uma vontade legítima de melhorar as histórias contadas no audiovisual. Todo esforço será em vão, no entanto, enquanto os vícios permanecerem à frente das virtudes. Sexo e suor ajudam e explicar o Brasil, mas só fazem sentido quando acompanhados por um bom argumento – no caso das adaptações, a preservação do texto, da fibra do livro, é fundamental.

Sem conteúdo, não há elenco e equipe técnica preparados para operar milagres. Vamos evoluir com mais rapidez e robustez quando compreendermos isto.

  • Kauê

    Desculpe, mas você infelizmente não entende nada de televisão, muito menos da obra, para realmente citá-la como um ponto negativo em sua adaptação televisiva. Informe-se para saber que o fato de não haver um tempo linear, é o ponto alto do livro e o roteiro de Maria Camargo ressalta e adapta fidedignamente o brilho da obra. Certa vez, no lançamento da minissérie, o qual estive presente, Milton Hatoum afirmou que era a adaptação mais fiel e bem feita, já imaginada por ele. Infelizmente, o Brasil está tão mal acostumado com obras de qualidade, que pseudos-críticos, são incapazes de avaliar uma obra como tal, além claro da falta de contato com a literatura nacional. Por favor, produza algo que realmente seja crítico e relevante.

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