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Nascido para vencer

Stallone-e-Rocky-em-Creed-Nascido-Para-Lutar

Por Yashá Gallazzi

No próximo domingo será realizada a cerimônia do Oscar e, como tantas pessoas que adoram a antologia Rocky, estou na expectativa de ver o Stallone ganhando o prêmio de melhor ator coadjuvante, pelo trabalho dele em “Creed”. O que pretendo neste texto, porém, não é dar um depoimento emocional de fã, mas apontar, de forma objetiva e alicerçada em fatos, as razões que me levam a crer que Sly entregou, efetivamente, a melhor interpretação dentre todos os indicados.

Stallone ganhou alguns importantes prêmios na temporada pré-Oscar, mas muitos atribuem isso a um sentimento de nostalgia: estariam recompensando ele pelo “conjunto da obra” (de inegável relevo), não pela performance em cena especificamente. Diante da possibilidade de ele ganhar o Oscar no domingo, muita gente já está sacando essa tese por antecipação e fazendo questão de dizer que, se ganhar, não vai ser pelas qualidades cênicas.

Ok, eu não sou maluco. Stallone não é um Al Pacino, eu sei disso. Mas ele tem muito mais talento do que se usou dizer. A má vontade com o Sly vem, em grande parte, porque os críticos “cult” não admitem ver o sucesso de um sujeito que fez fama e fortuna encarnando alguns dos mais famosos brucutus do cinema. Só que a antologia Rocky se destaca não apenas na filmografia do Stallone, mas na história do cinema.

Em “Creed”, esse filme que é um híbrido entre spinoff e reboot, Stallone está solto em tela como nunca esteve antes. Ele está à vontade, sem o peso de ser o protagonista, de ter que carregar o filme (função agarrada pelo espetacular Ryan Coogler, que dirigiu esse filme como um veterano). Justamente por isso, Stallone deixa aflorar aquilo que torna o personagem Rocky mais fascinante e especial: a simplicidade.

A história de vida do personagem não remete à do ator de graça. Rocky é uma sorte de biografia do próprio Stallone, assim resumida: você pode não ser o melhor, mas é indispensável que se esforce, se dedique, dê tudo de si para fazer sempre o máximo, independente das dificuldades que surgirem no caminho. Ou, como o personagem disse no filme “Rocky Balboa”, não se trata do quando você consegue bater, mas do quanto consegue apanhar e continuar seguindo em frente.

Stallone, como seu alter-ego – e como nós – sabe que não é um Al Pacino. Então, uma vez aceito o desafio proposto por Coogler de encarar mais uma vez Rocky nas telas, ele foi atrás de profissionais especializados na preparação de atores, se entregou à condução do diretor e não titubeou, em nenhum minuto, em passar o bastão da saga para o jovem protagonista, dando nas mãos de um novato o seu legado. Stallone coroou quarenta anos de construção de um personagem histórico, que evoluiu ao longo do tempo e que transmite na tela cada ano que carrega nas costas e cada cicatriz que traz no coração.

Tom Hardy, um dos concorrentes de Stallone, faz um trabalho notável em “O Regresso”. Ele também construiu um personagem, com trejeitos e traumas passados. Mas… Será que foi ele? Porque eu vejo lá muito mais a mão do Alejandro Inarritu, diretor genial daquele filme (ou o super expressivo Mad Max conseguiu do dia pra noite atuar?). O mesmo digo sobre Mark Rylance, outro indicado ao prêmio de coadjuvante: ele é talentosíssimo, mas, no caso de “Ponte de espiões”, a mim transparece muito mais a condução do Spielberg, do que um trabalho de construção de personagem vindo do ator. Quero deixar claro que um ator não tem demérito nenhum em ser bem conduzido por seu diretor, pelo contrário. Estou tentando explicar que não vejo, por parte deles, um grande trabalho psicológico ou físico de elaboração de uma persona.

Outro concorrente do Stallone no Oscar é Christian Bale, por sua atuação em “A grande aposta”. Aqui eu até vejo um trabalho forte e dedicado de composição de personagem, com tiques, trejeitos, linguagem, expressões… Mas, pro meu gosto pessoal, ele cruza várias vezes o limite do que se chama “overacting” e exagera. Aí a atuação deixa de ser especial porque ele esfrega na nossa cara o nerd recluso, que não fala com ninguém, que não liga pra aparência (como mostra o cabelo cuidadosamente bagunçado…). Enfim, deixa transparecer artificialidade.

Além desses, concorre Mark Ruffalo pelo papel em “Spotlight”. E aqui, com todo respeito aos que elogiam a performance dele, não tenho nem o que dizer. Eu o vejo em cena e não consigo acreditar nem por um minuto no personagem: pra mim é sempre o Ruffalo e ponto. Ele tem a mesma expressão forçadamente tensa no rosto, seja quando uma vítima de abuso revela a ele o trauma, seja quando está vendo um jogo de baseball.

Stallone, porém, sem o peso do protagonismo, pôde se soltar e mostrar as décadas de construção do personagem que ele conhece tão bem. E aqui, apesar da direção forte do Coogler (que já citei antes), acredito que muito da atuação vem das mãos do próprio Sly, porque, convenhamos, ninguém conhece um personagem tão bem como o cara que o interpreta há quarenta anos, que escreveu a história dele e que o dirigiu tantas vezes.

Peguemos a primeira cena em que Stallone aparece no filme, no restaurante, conhecendo Adonis: vemos um Rocky que sobe as escadas mostrando o peso dos anos, a idade, como deve ser. E que, ao ouvir que o jovem seria filho do seu antigo rival/amigo, endireita a postura, se aproxima, o encara “gingando” levemente – mas de força perceptível -, de um lado pro outro, sutilmente, como fazem os… lutadores. Porque é isso, afinal, o que ele é. Tenha 30, 50 ou 70 anos, Rocky é um lutador e os lutadores têm posturas e trejeitos deles. Isso é construção de personagem! Isso é composição de personalidade!

Num outro momento muito particular (e aqui não foram muitos que captaram a referência, infelizmente), Rocky recebe Adonis em sua casa e mostra o quarto onde o garoto vai ficar, que era do Paulie. Adonis explora o ambiente e encontra uma foto de Rocky com o filho. O garoto da foto é Sage Stallone, filho do ator, que participou da antologia e morreu tragicamente em 2012, aos 36 anos. A referência ao filho morto é tão singela quanto tocante quando Rocky, perguntado sobre onde está o filho, diz a Adonis que ele se mudou, está “num lugar melhor” – a expressão que usamos para citar aqueles que se foram. É de rasgar a alma da gente.

Mais adiante, no momento-chave do filme, em que Rocky recebe o diagnóstico da sua doença, vemos a câmera enquadrando o Stallone e fechando nele, até mostrar só o rosto. Ali ele ganhou a indicação ao Oscar: ele não fala, não diz nada. Não precisa. Não tem truque pra chorar, não tem corte pra poder se concentrar e vir o choro. Nada. É tudo lá, direto, seco: o rosto fala, porque o “melhor amigo” do Sly (assim o ator se referiu ao personagem, ao receber o prêmio dos críticos) estava recebendo uma sentença de morte. E a gente sente com ele cada instante da dor que essa notícia causa, sem precisar de texto.

Quando o personagem que passou seis filmes falando que não se deve desistir nunca muda e diz que está pronto pra se deixar partir, porque todo mundo que ele tinha partiu, exalando um suspiro enorme de quem, enfim, desabafa, a gente não duvida por um minuto do que está acontecendo em tela. Essa sequência foi tão forte, que eu acreditei de verdade que usariam o recurso “fácil” de matar o personagem, para garantir a passagem de gerações (como Star Wars fez de forma covarde em “O despertar da força”).

Mas não! Stallone, como eu falei, tem o personagem na mão. Como qualquer um se conhece depois de 40 anos de vida e sabe do que é capaz, ele também sabe tudo que Rocky é e pode dar e empurrou o personagem ao limite da rendição, ao ponto de quase jogar a toalha, para, então, se deixar pegar pela mão pelo novato que apareceu e nos mostrar em tela que “se eu luto, você luta”. E você não duvida por um minuto que ele é capaz de enfrentar mais essa batalha, porque foi esse caráter que Stallone nos mostrou que o personagem tem, ao longo dessas décadas. Isso é construção de personagem!

Sim, eu sou fã da série, do ator e da metáfora de vida que permeia a saga toda. Mas o que quero dizer é que, se o Oscar premia atuação, o reconhecimento ao Stallone este ano seria mais do que justo, afinal nenhum dos outros teve um trabalho tão grande de composição de personagem, formatação de personalidade e evolução. Podem dizer que Rylance é tecnicamente melhor ator – eu até acho que seja -, mas Apollo também era tecnicamente melhor pugilista, só que não tinha o “olho do tigre”.

Stallone teve o “olho do tigre” em cada cena de “Creed”. Não vejo nenhum dos indicados deste ano com um esforço tão grande de construção, desenvolvimento e entrega de personagem como o que ele fez. Se, além disso, a Academia quiser premiar a história de vida ou a carreira, que seja. Será merecido igual. Se não quiser e outro ganhar, eu só consigo lembrar da lição do primeiro Rocky (replicado agora em “Creed”): o importante não é o resultado, é a jornada vivida para chegar até o final sabendo que fez o máximo.

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