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Cinema

A superficialidade de “Oito Mulheres e Um Segredo”

Entre os 100 maiores lançamentos de 2016, de uma lista gerada pela Box Office Mojo, só 34 continham mulheres como protagonistas. Destes filmes, apenas 8 representaram mulheres de mais de 45 anos. Com frequência alarmante, as adolescentes (13 aos 20 anos) foram retratadas de forma sensual, com roupas reveladoras ou cenas de nudez. O problema piora, e muito, se analisarmos a participação de mulheres negras, latinas ou asiáticas. A refilmagem de “Caça-Fantasmas”, “Mulher Maravilha” e “Oito Mulheres e Um Segredo” surgiram para atrair um público formado por metade da população mundial e ignorado há muito tempo.

Mesmo com a baixa representatividade, há quem fique descontente com a suposta “invasão feminina” no cinema. Fãs da formação original de “Os Caça-Fantasmas” atacaram Leslie Jones (única atriz negra da refilmagem) com tweets racistas – processo que se repetiu com Kelly Marie Tran, atriz asiática de “Os Últimos Jedi”, no Instagram. O último capítulo da saga Star Wars foi bastante criticado pelo destaque que deu às diferentes personagens femininas. Antes mesmo do lançamento, recebeu diversas avaliações negativas no Rotten Tomatoes, o que também ocorreu com “Pantera Negra”, que tem um homem como protagonista, mas apresenta três mulheres marcantes, além de um elenco predominante de negros.

Para quem tem privilégios, qualquer tentativa de igualdade pode parecer perseguição. Por mais de um século, as mulheres e os negros assistiram filmes de homens brancos (cresci com Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e Jean-Claude Van Damme), e, mesmo assim, conseguiram se identificar com os personagens e se apaixonar pelo cinema como um todo. A dinâmica poderia ser recíproca, mas foi criada uma barreira de insegurança e medo, motivada por razões políticas, além de misoginia e racismo.

A sorte de “Oito Mulheres e Um Segredo” é que a nova versão não pisa em nenhuma terra santa de domínio nerd, ou seja, não “estraga” a infância de ninguém colocando mulheres no lugar de homens – a turma do George Clooney já havia se colocado no lugar da turma do sagrado Frank Sinatra – e, assim, não deve ser tão massacrado quanto Star Wars ou qualquer outro filme de heróis que experimente algo novo. Na verdade, “Oito Mulheres” tenta com todas as forças emular o mesmo conteúdo e o mesmo estilo de “Onze Homens e Um Segredo”, até mesmo na trilha sonora e nas transições das cenas, a única diferença é o figurino mais chamativo.

Sandra Bullock é Debbie Ocean, irmã de Danny Ocean (personagem interpretado por Clooney nas versões de 2001, 2004 e 2007, mas ausente desta vez). Recém-saída da prisão, ela começa a por em prática um plano mirabolante para roubar um colar no valor de cento e cinquenta milhões de dólares do pescoço da atriz Daphne Kluger (Anne Hathaway, grande destaque cômico) durante o Met Gala, baile glamuroso organizado por Anna Wintour, editora da Revista Vogue. Suas comparsas são Lou (Cate Blanchett, nos melhores figurinos do filme), Rosa (Helena Bonham Carter), Amita (Mindy Kaling), Bola Nove (Rihanna), Costance, (Awkwafina) e Thammy (Sarah Paulson).

Dirigido por Garry Ross (“Jogos Vorazes”), “Oito Mulheres” só decola mesmo quando chega o dia do roubo. Até lá, as roupas bonitas e as marcas famosas tentam compensar um roteiro fraco, sem muito desenvolvimento das personagens, e a direção sem o estilo especial de Steven Soderbergh, diretor de “Onze Homens”, “Doze Homens” e “Treze Homens”.

“Oito Mulheres” conta com uma atriz negra (Rihanna) e duas asiáticas (Kaling e Awkwafina), Bullock tem mais de 50 anos, Blanchett tem quase 50. É um filme importante para uma representação feminina mais diversa e menos caricata, mas falha ao tentar imitar as versões passadas em vez de criar algo novo, cujo parâmetro de comparação não seja masculino. Além disso, Debbie vem de uma família em que o pai e o irmão são bandidos infames, como se o crime fosse genético, e ela tenta se vingar do ex-namorado que lhe colocou na prisão. Suas atitudes parecem todas definidas pelos homens de sua vida. Assim, Hollywood avança dando um passo em frente e dois passos atrás.

Mesmo sem uma horda de fãs raivosos dedicados à franquia, vale contar que, durante a divulgação de “Oito Mulheres”, um entrevistador perguntou a Mindy Kaling como ela poderia interpretar uma especialista em diamantes sem nunca ter sido casada, o que seria como perguntar a Liam Neeson como ele fez “Busca Implacável” sem ter filhas sequestradas. O incômodo que esses filmes concentrados em mulheres têm provocado só evidencia a necessidade de serem feitos.

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