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Cinema

“Um Lugar Silencioso” é um dos melhores filmes do ano

Não se precisa de muito para fazer um filme. Para Jean-Luc Godard (ou D.W. Griffith, dependendo da versão), basta uma mulher e uma arma. Para Alfred Hitchcock, só era necessário o chamado “MacGuffin”, isto é, um elemento narrativo qualquer que afete os protagonistas e suas motivações. A maleta que emite uma luz dourada em “Pulp Fiction”, por exemplo, é um MacGuffin. Não sabemos o que há dentro, mas sabemos que os personagens precisam dela. “Um Lugar Silencioso”, já nos cinemas, tem uma premissa simples: uma família precisa sobreviver, em silêncio, em um cenário pós-apocalíptico dominado por criaturas cegas que atacam qualquer um que faça barulho. Não sabemos como as criaturas surgiram, ou o que são (se são alienígenas, monstros aquáticos, resultado de alguma experiência genética ou de um vazamento radioativo), mas isto não importa. Sabemos que a família precisa sobreviver e é suficiente.

Dirigido com maestria por John Krasinski (sim, o Jim Halpert da versão americana de The Office), “Um Lugar Silencioso” é uma das grandes revelações do ano. Um filme simples e eficaz, que se vale de preceitos básicos do cinema para emocionar e envolver o espectador. É um tributo ao mais puro cinema, ao cinema de gênero e até mesmo ao cinema mudo. Com pouquíssimos diálogos – os personagens conversam, em grande parte, por meio de linguagem de sinais –, Krasinski utiliza o som (e a ausência dele) como importante recurso narrativo. A maioria das cenas ocorre em silêncio, sempre na expectativa de um barulho inesperado que possa chamar a atenção das criaturas. É também um teste aos mais ansiosos, que não conseguem ir ao cinema sem conversar, checar o telefone, mexer na bolsa e/ou em sacolinhas plásticas barulhentas. “Um Lugar Silencioso” é um filme tenso, quieto, que sugere muito e explica pouco. As pessoas não estão acostumadas a parar, olhar e pensar por conta própria, sem um personagem ou um narrador que explique o que está acontecendo.

Na estreia do filme em Nova York, Krasinski disse que a sua experiência na série cômica “The Office” ajudou na direção de “Um Lugar Silencioso”: “eu lembro que o criador Greg Daniels disse que meu dever não era ser engraçado, mas apenas interpretar as falas. Se alguém ri, é por conta do espectador, você só atua de acordo com a verdade do momento, e eu apliquei isto aqui. Meu objetivo não foi fazer um filme assustador, mas um filme sobre uma família. Se você se assustou, é porque você não queria que nada acontecesse com essas pessoas.” Em entrevistas, ele diz também que nunca foi muito fã de filmes de terror, que a sua inspiração principal foi, na verdade, deixar uma carta de amor para as suas filhas. Além de dirigir, Krasinski atua ao lado de sua esposa, Emily Blunt (a futura Mary Poppins) – três semanas antes de ler o roteiro do filme, assinado por Bryan Woods e Scott Beck, nasceu a segunda filha do casal, tornando a obra ainda mais significativa e pessoal.

Apesar de não gostar de terror, Krasinski queria que “Um Lugar Silencioso” tivesse a atmosfera clássica de filmes como “Tubarão”, “O Bebê de Rosemary” e “Alien, o Oitavo Passageiro”. Entre os mais recentes, “Deixa Ela Entrar”, “O Babadook”, “A Bruxa” e “Corra!” (terror que também foi dirigido por um ator cômico) são seus favoritos. Sem dúvida alguma, “Um Lugar Silencioso” já faz parte deste seleto grupo de preciosidades do gênero que exemplificam tão bem o que há de melhor na linguagem cinematográfica.

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