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Cinema

“Jogador Nº 1”, novo filme de Spielberg, ataca o vilão errado

Há quem pense que o entretenimento de referências é uma invenção recente, talvez pela onda de séries como “Stranger Things”, calculada para causar um conforto morninho em um público sedento por reconhecer e relembrar elementos familiares de um período querido (no caso, os anos 80). O mesmo ocorre na música, com cantores como Bruno Mars tentando emular o encanto de Michael Jackson e, no videogame, com o relançamento de consoles e de jogos clássicos, como o Nintendo Classic Mini e “Crash Bandicoot”. “Jogador Nº 1”, novo filme de Steven Spielberg, pode parecer mais um exemplar desta lucrativa leva de pastiche de memórias afetivas relacionadas à cultura pop. Por se tratar de Spielberg, entretanto, é necessário um olhar mais cuidadoso.

Nas décadas de 1960 e 1970, cineastas como Steven Spielberg e George Lucas provocaram uma mudança no sistema dos grandes estúdios de Hollywood. Os chamados “Movie Brats” – algo como “Pirralhos do Cinema”, que também incluíam Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Martin Scorsese, entre outros – não eram artistas do teatro, da televisão ou da literatura, mas jovens que cresceram assistindo e estudando cinema. Eram jovens apaixonados, com um vasto conhecimento do melhor que a sétima arte tem a oferecer, e que, inspirados em seus mestres, passaram a criar suas próprias obras. Desde o início de suas carreiras, há referências aos filmes de Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, François Truffaut etc.. Spielberg disse que aprendeu a dirigir atores mirins com Truffaut. Truffaut, por sua vez, prestou homenagem ao mestre Hitchcock, e assim por diante. Copiar e colar é, portanto, uma prática estabelecida já há muito tempo no cinema. A questão não é simplesmente jogar referências ao público, mas de que forma você pode construir algo novo com elas.

“Jogador Nº 1” conta a história de Wade (Tye Sheridan), um rapaz pobre que vive em uma espécie de favela do futuro. Em 2045, graças à invenção genial do guru tecnológico Halliday (Mark Rylance), todos vão passar muito mais tempo dentro da realidade virtual do que na realidade em si. No simulador Oásis, todos podem ser o que quiser – podem ser Freddy Krueger ou Marvin, o Marciano, se tiverem moedas suficientes. Antes de morrer, Halliday, que é venerado como um Steve Jobs, escondeu três chaves pelo jogo. Quem encontrá-las irá herdar a empresa que é a grande responsável pela economia mundial. Para tentar encontrar pistas de onde as chaves podem estar e como conquistá-las, todos devoram as referências culturais que formaram a identidade de Halliday quando jovem. IOI, a segunda maior empresa do mundo – e cujo logo é bastante parecido com o da PlayStation – tem equipes gigantescas buscando as chaves, tudo para tomar o controle do mercado da realidade virtual, mas é Wade quem mais se aproxima de encontrá-las, atrapalhando os planos da corporação.

A primeira grande cena de ação envolve uma corrida de automóveis com obstáculos como bolas gigantescas de demolição, dinossauros e, por fim, o King Kong. É divertido? Sim, bastante. Grande parte do filme parece uma continuação da vinheta do cinema IMAX (aquela que dá pra ouvir o barulho de um alfinete ao som de uma turbina de avião), é impressionante mesmo. Mas “Jogador Nº 1” parte de um princípio um tanto quanto funesto de que, aquele que dominar o maior número de referências pop, está destinado a controlar a economia mundial e, principalmente, destruir o capitalismo, representado pela corporação malvada que escraviza e mata as pessoas tanto no mundo virtual como no real (ok, no meio disto tudo, há também uma mensagem sobre a importância da amizade). O grande problema é que nenhuma destas referências pop seriam possíveis sem o capitalismo. Nunca houve liberdade artística na União Soviética ou na China comunista. É só ver os casos de Mikhail Bulgakov ou de Ai Weiwei. O capitalismo é tão livre que permite, inclusive, que um diretor de enorme sucesso comercial como Steven Spielberg possa fazer filmes caríssimos, com a melhor tecnologia e os mais renomados profissionais ao seu dispor, para criticar o capitalismo.

Com esse tom de crítica social, emaranhado em um universo divertido e, de fato, eletrizante, é difícil não pensar em Spielberg como um nerd que perdeu o encanto, que ainda utiliza suas referências, mas como se fossem brinquedos velhos, sem a mesma paixão de antes. É visível até na cor. Para um filme tão cheio de personagens e mundos fantásticos, “Jogador Nº 1” é talvez um pouco cinza, um pouco escuro demais. Mais para o final, um confronto entre um Mechagodzilla e um Gundam desperta a curiosidade de ver a mesma obra pela ótica de alguém como Guillermo del Toro, um nerd que ainda não perdeu o viço. De fato, “Jogador Nº 1” provoca nostalgia, mas não é pela década de 1980, é por um Spielberg de filmes como “Tubarão” e “Indiana Jones”.

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